Se me dissessem há alguns meses atrás quem eu acabaria por convidar, diria-vos que só podiam estar a delirar.
Esta senhora entrou em minha casa por obra do acaso. Num dia em que nada de especial passava na televisão e eu, enfadada com tanto canal sem conteúdo que me interessasse, ía saltando de um para outro na esperança de encontrar algo que merecesse a minha atenção. Eu gosto bastante de programas de culinária, mas há alguns que simplesmente não me convencem... Quando vi que estava a dar a Deliciosa Miss Dahl, foi com grande desconfiança que pousei o comando para ver o que dali sairia. E não mais lhe toquei! Rendi-me à sua simplicidade e sinceridade, à sua forma de contar estórias, de interpretar receitas... Desde então, vi sempre que pude o programa e acabei por comprar o maravilhoso livro, que não só tem receitas deliciosas como está repleto de textos onde conta, de forma encantadora, episódios da sua vida.
E assim decidi convidar a voluptuosa Sophie Dahl para jantar!
Imagino-a a chegar numa fantástica tarde de muito sol, sorridente como sempre, do alto do seu intimidante 1,80m.
Convido-a para um chá e uma fatia de um bolo de limão que tenho acabado de sair do forno. Conversamos sobre literatura e sobre a culinária, as suas duas grandes paixões. Conta-me alguns momentos marcantes da sua infância e da sua triste estadia num colégio interno, longe do encanto e magia descritas nos lendários livros de Enid Blyton.
Levo-a a visitar a minha varanda, onde orgulhosamente lhe mostro o meu pequeno jardim de ervas aromáticas, timidamente dispostas em vasos. Ri-se do meu lindo e farfalhudo tomilho-limão e gaba-me a minha viçosa salsa (cujo enorme vaso de barro já tem um belo pedaço arrancado), o meu ainda muito bebé alecrim, a minha alegre hortelã e o meu vibrante malagueteiro.
Chegada a hora do jantar, sabendo que não come carne e prefere refeições ricas em legumes e cor, decido preparar-lhe algo que costumo fazer várias vezes e que adoramos, um salteado de legumes com um toque oriental. Sirvo-lhe um copo de vinho branco maduro, que vai bebericando encostada à bancada, enquanto me observa a cozinhar. Chegada a hora da verdade, sentamo-nos à mesa e munidas de pauzinhos, provamos a iguaria. Delicioso!, diz-me ela num português arranhado e com um sorriso franco rasgado!
Terminamos com um surpreendente arroz doce, receita sua que decido fazer e que ela prontamente aprova, sugerindo outras possíveis variações e combinações!
Despedimo-nos por fim, depois de um serão bem animado e fico bastante surpresa quando me pede a receita do jantar, que lhe passo de imediato com um enorme rubor no rosto:
Ingredientes (2 pessoas):
1 beringela
1 courgette
2 talos de aipo
1/2 pimento verde
1/2 pimento vermelho
1 alho francês - a parte verde
200g de cogumelos frescos laminados
1/2 lata de rebentos de feijão mungo (ou a gosto)
10 tomates cherry
6 a 8 espigas de milho bebé (ou a gosto)
1 fio de azeite
sal e pimenta preta acabada de moer q.b.
1 colher de café de gengibre em pó
1 fio de molho de soja (ou a gosto)
1 fio de mirin
1 fio de óleo de sésamo
sementes de sésamo a gosto
Corte a beringela e a courgette, com a casca, em cubinhos e leve-as a saltear num wok (ou frigideira anti-aderente) com um fio de azeite.
Junte os talos de aipo picados e os pimentos cortados em juliana e salteie mais um pouco. Corte também o alho francês em juliana, por forma a ficar com tiras compridas e acrescente-as aos restantes legumes, juntamente com os cogumelos laminados. Tempere de sal (pouco, pois o molho de soja também tem sal), pimenta, o gengibre e regue com um fio de molho de soja. Deixe apurar um pouco e regue com um fio de mirin.
Quando os legumes estiverem quase prontos, junte os tomates cortados ao meio, os rebentos de feijão mungo e as espigas de milho bebé. Regue com um fio de óleo de sésamo e deixe absorver os sabores.
Entretanto, numa frigideira anti-aderente torre ligeiramente as sementes de sésamo.
Sirva os legumes de imediato, polvilhados com as sementes de sésamo.
E bom apetite!